O Conto da Flor Coração


 




Prefácio

 

 

 

“Dizem que, há muito tempo, viveu um homem solitário em uma das vastas planícies do que hoje chamamos de Reino de Galdelik. Nunca o conheci, mas os relatos que chegaram a mim revelam alguém honrado, afetuoso e, acima de tudo, de coração gentil. Além de sua memória, deixou para trás algo que o mundo jamais esquecerá: as belas Terkírias. E para que sua memória jamais se perca nos ventos do tempo, apresento-lhes agora O Conto da Flor Coração.” — O Filho do Vento




O Conto da Flor Coração

 

 

 

Há muito tempo, vivia um garoto.

Ele nascera em uma família humilde de floricultores, gente trabalhadora, marcada pela esperança e pelo esforço diário.

Mas o excesso de trabalho levou seus pais cedo demais, deixando-o sozinho no mundo.

Consumido pelo luto e pela solidão, ele reuniu suas poucas posses e partiu, sem saber ao certo o que procurava.

Caminhou por bosques, vilarejos, grandes cidades. Mas em nenhum desses lugares encontrou abrigo ou pertencimento.

Apesar de ter aprendido com sua família o valor da gentileza, logo descobriu que o mundo, infelizmente, não era gentil.

Não importava por onde andasse, o quanto sofresse ou as privações que enfrentasse nas estradas, ninguém parecia se importar.

Foi apenas então que encontrou seu lar: uma planície solitária, vasta e silenciosa.

Ali, levou uma vida simples entre os campos, enquanto construía com as próprias mãos uma pequena cabana. E fez o que aprendera com seus pais: cultivou a terra como quem cuida de uma lembrança.

Com delicadeza e paciência, passou a plantar diferentes espécies de flores, preenchendo a paisagem com cores e perfumes.

Os meses se tornaram anos, e a planície outrora esquecida começou a se destacar.

Vieram, então, outras almas errantes, pessoas que, assim como ele um dia fora, ainda buscavam um lugar no mundo. E ali, entre flores e silêncios partilhados, um povoado começou a nascer.

Logo, viajantes e comerciantes passaram a seguir o caminho que cortava os campos, uma trilha segura, adornada por hospitalidade sincera e uma paisagem de tirar o fôlego.

Com o tempo, aquele recanto tornou-se conhecido por toda a região como um refúgio de beleza e acolhimento.

Reconhecendo o valor daquilo que ali havia sido cultivado, a própria rainha cedeu-lhe oficialmente aquelas terras.

E assim, os campos passaram a carregar o nome daquele jovem que os transformou com flores e gentileza: Os Campos Terkíria.

Embora agora estivesse cercado de pessoas, ainda se sentia solitário e sem propósito, perguntando-se, vez ou outra, o que, afinal, as pessoas viam nele.

Logo depois, chegou a primavera.

Sob a sombra de uma árvore, ele se perguntava se, como as flores ao seu redor, também um dia desabrocharia.

Foi quando ela apareceu, e, com sua chegada, o mundo teve um novo sentido.

— Olá... desculpe incomodar seu descanso — disse ela, com um tom tímido e delicado.

Ele ergueu os olhos, ainda tristes, e os voltou para ela, admirando seus cabelos e olhos negros como a noite.

— Em que posso ajudar? — perguntou, levantando-se e sacudindo suavemente a roupa.

Ela contou que vinha de muito longe e que, assim como ele um dia, havia perdido a família. Em busca de um novo propósito, soubera dos Campos Terkíria, e ali estava.

Naquele instante — como ela mesma me revelou — ele sorriu.

Seus olhos ainda carregavam tristeza, mas o sorriso... era o mais bonito e gentil que ela já havia visto.

Por breves segundos, toda a dor que ela trazia consigo pareceu desaparecer.

Assim como acolhera tantas outras almas errantes, ele também a acolheu.

Os dias correram serenos, e ele a envolveu na simplicidade tranquila de sua rotina.

Ela, aos poucos, foi deixando para trás as complicações trazidas por sua antiga busca por conforto vazio.

Sem perceber, os pesos que antes a consumiam se dissiparam, como névoa diante do sol.

Ambos, enfim, compreenderam: tudo o que buscavam estava ali, bem diante de seus olhos.

Com a vida florescendo dentro de si, ele passou a enxergar cores e sensações até então desconhecidas.

E, com o nascimento da filha, já não restavam dúvidas: tinham tudo de que precisavam.

Mas, como bem sabiam... o mundo nem sempre era gentil.

Anos de prosperidade se passaram.

Ele estava ajoelhado ao lado da filha, ensinando-a a plantar. A pequenina sujou os dedos com terra e riu, encantada. A mãe os observava à distância, costurando uma manta com flores bordadas, simples, mas cheia de ternura.

Aquilo era tudo.

Aquilo era seu mundo.

Mas uma tempestade começou a se formar no horizonte.

E com ela, a serpente dos céus, aquela que foi capaz de absorver a força das próprias tormentas.

Ao perceber o perigo que ela representava ao vilarejo, o homem prontamente se ofereceu para enfrentá-la.

E enquanto se despedia, sua filha correu até ele, segurando algo pequeno em suas mãos.

— Papai... leva essa sementinha pra dar sorte — disse ela, com os olhos marejados de preocupação.

Ele se ajoelhou, emocionado, e a abraçou com ternura.

— Vou levá-la no coração — respondeu, guardando com carinho no bolso do lado esquerdo do peito.

E então partiu.

Enquanto avançava pela colina, flores voavam como preces, árvores vergavam ao vento, o chão estremecia, e o céu rodopiava em fúria, mas nada o deteve em sua marcha até Galdelik, a Serpente dos Céus.

A criatura tinha um corpo esguio, de aparência metálica, e olhos vítreos de um azul profundo. Suas quatro asas, que batiam como se soprassem o próprio destino, geravam a tempestade.

— Frágil é tua chama diante do vento, e mesmo assim, caminhas para o olho da tormenta? — perguntou ela, com arrogância.

— Vim pedir humildemente que poupe o nosso vilarejo — respondeu ele, com um olhar firme.

— E que direito tens de me fazer tal pedido? — retrucou ela, enquanto faíscas dançavam entre suas presas.

O homem se ajoelhou e se curvou em uma longa reverência.

— Ó grandiosa Galdelik, sei que não tenho direito algum. Mas tenho um dever: proteger esse lugar e este povo. E, por eles — não por mim — eu imploro.

A serpente aproximou o rosto, encarando-o com curiosidade.

— Se é por eles... estás disposto a pagar o preço sozinho?

Sentindo um aperto no peito, conhecendo seu destino, a angústia começou a dominá-lo.

Sentiu o peso da decisão. Pensou na filha, no riso suave da companheira ao entardecer, nas mãos sujas de terra, e num futuro que jamais veria florescer.

Sem vacilar, olhou para trás, contemplando uma última vez os campos que havia cultivado, o vilarejo que havia construído e, por fim, aquelas que significavam seu mundo.

— Estou — respondeu, com uma lágrima discreta escorrendo pelo rosto.

Um raio colossal caiu do céu, e, com ele, a tempestade cessou, deixando para trás aquele que havia pagado o preço.

E graças à sua história, e ao seu sacrifício, que pude, enfim, intervir.

Subjuguei Galdelik e a entreguei aos Aturiat, governantes de seu reino, selada em uma forma menos ameaçadora.

Mas antes de aprisioná-la, fiz-lhe uma promessa:

"Quando compreender, enfim, o significado daquele sacrifício... estará livre mais uma vez."

Somente então visitei seus campos, um lugar digno da reputação que ele construíra e que agora guardava seu legado.

Sob o céu limpo, vi algo florescer apenas sobre o seu túmulo: uma flor violeta, de pétalas em forma de coração, entrelaçadas em um buquê, como se a própria terra lhe prestasse homenagem.

Foi nesse instante que compreendi: seus pais não lhe haviam ensinado apenas o cultivo de flores e gentilezas...

Eles lhe ensinaram algo ainda mais poderoso, capaz de mover montanhas e transformar mundos, algo que Galdelik jamais havia experimentado: o Amor.

FIM


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