O Conto dos Dragões Gêmeos

 





Prefácio

 

 

 

“Existiu um poderoso dragão que dominou todo o nordeste do Reino de Sorya durante a Era da Escuridão. Costumavam chamá-lo de Salamandra Vermelha, pois suas escamas tinham a tonalidade vibrante de um carmesim raro. Aqueles que não o conheciam, temiam-no. Os poucos que o conheciam, respeitavam-no. Para mim, ele sempre foi um amigo leal e altruísta, e a criatura mais nobre que já encontrei em toda a minha longa vida. Apresento-lhes o Conto dos Dragões Gêmeos, Cyllion e Cylliak, filhos do dragão branco Aldiros, parentes de sangue dos proclamados Daraliel, e netos do meu querido amigo, Kardo” — O Filho do Vento




O Conto dos Dragões Gêmeos

 

 

 

Para que esta história faça sentido, há algo que vocês precisam saber sobre as escamas dos dragões.

Meu grande amigo Kardo certa vez me contou que elas são moldadas pelo ambiente onde o ovo é chocado.

Tudo então se encaixou em minha mente: Kardo nascera dentro de uma caverna vulcânica; suas escamas, de um vermelho carmesim vibrante, refletiam o calor ininterrupto do magma ao redor. Aldiros, seu filho, por sua vez, tinha escamas brancas como a neve, pois viera ao mundo em uma montanha gélida no extremo sul.

Mas esta história não é sobre Kardo, nem sobre Aldiros. É sobre Cyllion e Cylliak, os dragões gêmeos.

Pouco antes de partir para sua última batalha, Aldiros depositou seus últimos ovos em uma caverna escondida.

Anos se passaram. E, com as mudanças provocadas pela divisão dos reinos, um pequeno buraco se abriu na caverna. Cyllion e Cylliak permaneciam juntos desde o início, mas, durante o tremor, o ovo de Cylliak rolou suavemente até o interior do buraco, enquanto Cyllion permaneceu aninhado entre as raízes de uma antiga árvore.

Décadas se passaram. O terreno se transformava pouco a pouco. A erosão escavou uma abertura no teto da caverna e, com ela, vieram as chuvas. O buraco onde Cylliak repousava encheu-se de água, transformando-se em um pequeno lago subterrâneo. E ali, noite após noite, o ovo era banhado pela luz prateada das duas luas.

Cyllion permaneceu ao lado de seu irmão o tempo todo. Poderia ter nascido anos antes, mas escolheu esperar, adormecido, até que ambos pudessem nascer juntos.

E assim nasceram Os Dragões Gêmeos, Cyllion e Cylliak.

Cyllion surgiu com escamas verdes vivas, brilhantes como as folhas de uma árvore ao sol. Cylliak, por sua vez, possuía escamas de um azul profundo que, ao serem banhadas pela água, tornavam-se tão reflexivas quanto um espelho.

Logo após despertarem de seus ovos, partiram em direção à claridade, impulsionados por uma curiosidade natural e pelo desejo de explorar, em busca de aventuras desde os primeiros momentos de suas vidas.

Tropeçaram no início, falharam, caíram, desequilibraram-se, mas logo pegaram prática com as asas e começaram a dançar pelos céus, girando um ao redor do outro, entrelaçando-se em espirais no ar.

Até que, em um belo dia, uma enorme sombra os envolveu.

Quando ergueram os olhos, viram um imenso dragão carmesim sobrevoando-os. Assustados, pousaram rapidamente. A criatura colossal parecia tão grande quanto uma montanha com as asas abertas.

Mas então ele os fitou. Seu olhar era calmo e sereno, como o de quem guarda segredos antigos, e isso acalmou os corações dos pequenos dragões.

— Por acaso sabem quem sou, pequeninos? — perguntou o dragão, lançando sobre eles um olhar acolhedor.

Eles negaram com a cabeça, pois ainda não haviam adquirido a habilidade da fala.

— Sou o pai de seu pai. Meu nome é Kardo — disse ele, com a voz profunda como o rugido de uma montanha ao despertar.

De repente, seu corpo começou a emitir uma intensa luz cintilante, entrelaçada por todas as cores do arco-íris. Os dragões assistiram, fascinados, enquanto aquela luz vibrante diminuía, condensando-se pouco a pouco... até revelar uma nova forma.

Diante deles agora estava uma figura imponente demais para ser apenas um homem. Era o que, ao longo do tempo, passaram a ser chamados de Aqueles com Sangue Dracônico, ou, como também eram conhecidos, os Daraliel.

Os dragões gêmeos se entreolharam, confusos, diante da criatura que agora os observava. Era imensamente alto, mais que qualquer humano que pudessem imaginar. Seus olhos, de um amarelo incandescente, carregavam um símbolo gravado nas íris, como se guardassem segredos ancestrais. Seus cabelos, longos e vermelhos como brasas vivas, caíam até a cintura em ondas flamejantes. Sua pele era escura como uma noite sem luas, e firme como o aço que dorme nas montanhas.

Ele estendeu os braços e pousou suavemente as mãos sobre os rostos dos jovens dragões.

Sempre se lembrem de que vocês são tudo o que restou de nós.

Com voz calma, mas carregada de memórias antigas, Kardo lhes contou sobre a Era da Escuridão que assolara o mundo. Falou do último suspiro de Aldiros, seu filho, e do nascimento de um novo tempo: a Era dos Reinos.

Ao final, ergueu o olhar para o céu e, com um tom de reverência, declarou:

— Este agora é o nosso lar. Pois aqui se ergue o Reino de Kardo.

Então ele se virou, contemplando a vista esplendorosa do topo da montanha. Seus olhos percorreram o horizonte, onde uma civilização nascente florescia ao longe, entre vales e rios cintilantes.

Foi nesse momento que os dragões notaram algo peculiar: o que parecia ser uma capa vermelha deslizava lentamente por seus ombros, movendo-se com o vento.

Percebendo o olhar curioso dos gêmeos, Kardo sorriu levemente.

Então, com um gesto firme, abriu aquilo que não era uma capa, mas sim suas asas, vastas, imponentes, de um vermelho profundo como rubi derretido.

O que antes parecia um fino tecido frágil revelou-se feito de músculo e força, de veias pulsantes e energia antiga. As asas de um Verdadeiro Daraliel.

E, daquele momento em diante, os Dragões Gêmeos se aventuraram pelos céus e vales do vasto reino.

Durante séculos, sobrevoaram montanhas, cruzaram oceanos e repousaram sobre florestas milenares, observando com olhos atentos o florescer das civilizações. Guiaram viajantes perdidos, afastaram pragas, aqueceram vilarejos durante os invernos mais rigorosos e protegeram, silenciosamente, todos aqueles que passaram a considerar como o seu povo.

Cyllion, o mais sereno dos dois, manteve-se fiel à filosofia acolhedora de seu avô. Via em cada criatura viva uma centelha do mesmo sopro primordial que um dia dera origem aos dragões. Para ele, todas as vidas eram sagradas. Cuidava de todos como se fossem parte de uma grande família.

Já Cylliak, embora agisse com nobreza e jamais demonstrasse hostilidade, nutria dentro de si dúvidas que não ousava revelar. Havia um silêncio em seu olhar que nem mesmo Cyllion conseguia alcançar. Ele se perguntava, em sua solidão, se a criação dos Daraliel e dos Eledras não teria sido, na verdade, o começo de um abandono.

Para Cylliak, ao moldar os seres de sangue híbrido e conceder-lhes poder e forma humanoide, Kardo havia dado aos homens aquilo que, em sua visão, era dos dragões por direito. Agora, sua espécie se encontrava à beira da extinção, relegada às memórias e lendas de um mundo que seguia em frente sem eles.

Ao mesmo tempo, ele não compreendia a verdadeira extensão das feridas que os próprios dragões haviam deixado no mundo. Não sabia — ou não queria aceitar — que foi justamente o orgulho e a fúria desenfreada de muitos de sua espécie que desequilibraram o ciclo da criação. E foi assim que a Era dos Dragões chegou ao seu fim.

E com o fim da soberania dracônica, teve início a mais longa e tenebrosa de todas as épocas: a Era da Escuridão.

Cylliak desejava confrontar seu avô. Queria entender suas escolhas, questionar seus motivos, e, quem sabe, encontrar, nas palavras de Kardo, a paz que tanto buscava dentro de si. Ansiava por um último diálogo, por uma verdade que pudesse aliviar o peso que carregava no peito.

Mas esse dia jamais chegou.

Kardo desapareceu sem deixar rastros. Nenhum sinal, nenhuma despedida, apenas o silêncio que se espalhou como uma sombra sobre o Reino que levava seu nome.

E então, aos poucos, a chama que outrora aquecia aquele território começou a se apagar. O fogo sagrado, que protegia os vales do rigor do inverno, foi se enfraquecendo até restar apenas brasa.

Sem Kardo, o outrora vibrante Reino de Kardo mergulhou em um inverno sem fim, uma terra gélida, encoberta por neblinas densas e montanhas eternamente nevadas, como se o próprio mundo lamentasse sua ausência.

Mas o que Cylliak ainda não percebia era que o legado de seu avô permanecia ali. Latente. Vivo. Ele apenas ainda não estava pronto para aceitá-lo.

E foi com esse sentimento turbulento que Cylliak deixou o reino. Partiu em silêncio, carregando nas asas o peso de suas dúvidas não respondidas.

Cyllion, porém, percebeu a dor escondida por trás do olhar do irmão. E, movido pelo laço profundo que os unia desde o nascimento, decidiu segui-lo. Não para convencê-lo a voltar, mas para que não enfrentasse sozinho o vazio que crescia dentro de si.

Juntos, os dragões gêmeos vagaram sem destino pelos céus e mares, cruzando horizontes desconhecidos, até que, um dia, encontraram um reino entre as nuvens, um lugar onde o vento sussurra histórias antigas, e as estrelas parecem ouvir.

Ficaram surpresos ao perceber que nós, do Primeiro Povo, os acolhemos de braços abertos. E foi assim que, enfim, tive a honra de conhecê-los.

Recebê-los foi uma alegria sincera. Para nós, eles eram uma centelha viva daquilo que meu querido amigo havia deixado ao mundo.

Cyllion logo se enturmou. Era prestativo, afetuoso, entusiasmado por aprender nossos costumes e por compartilhar os seus. Tinha uma presença leve, como se sua essência tocasse tudo ao redor com harmonia.

Já Cylliak se manteve distante. Desconfiado, silencioso, seus olhos estavam sempre voltados ao horizonte, como se buscassem algo além do que o mundo podia oferecer. Desaparecendo por alguns dias, vagando pelas vastas planícies do nosso reino.

Quando retornou, ofereci-lhe apoio, mas ele recusou. Ainda assim, jamais o julguei. Às vezes, falar daquilo que nos fere é doloroso demais. E, temendo não sermos compreendidos, escolhemos refúgio no silêncio. Afinal, a solidão muitas vezes parece mais segura do que a empatia.

E, embora tivesse ao lado alguém como Cyllion, confiável, presente, amoroso — deixou de confiar em si mesmo. E, ao fazer isso, afastou-se até mesmo daquele que esteve com ele desde o nascimento.

Os dias passaram. Até que, certo amanhecer, os dois anunciaram que partiriam rumo às vastas terras do oeste, a terra que minha querida irmã havia ajudado a florescer: o Reino de Carumedin.

Então partiram e, ao chegarem à costa, avistaram de longe os primeiros sinais de uma civilização florescendo junto ao litoral. Pequenas vilas se estendiam como sementes lançadas pela mão do vento.

Cyllion, com o coração sempre disposto a ajudar, sentiu-se imediatamente atraído por aquela vida nascente. Estava pronto para oferecer auxílio aos homens. Mas, antes que pudesse se aproximar, ouviu a voz grave e preocupada de seu irmão:

— Tome cuidado, meu irmão. Lembre-se de que eles não são do nosso povo...

Ainda assim, a indiferença era contra a natureza de Cyllion. Sem hesitar, mesmo sozinho, aproximou-se daquela gente para oferecer-lhes ajuda.

Enquanto Cylliak, mais desconfiado, passou semanas apenas escondido entre as sombras, observando os homens em silêncio, Cyllion trabalhou ao lado deles. Ajudou-os a erguer suas casas, a pescar nos mares bravios, a curar suas doenças com conhecimentos antigos que jamais haviam conhecido.

Mas a bondade, por vezes, é paga com traição.

Numa bela noite, sob a luz prateada das duas luas, Cyllion, adormecido, não percebeu a aproximação de alguns homens armados. Suas lâminas cintilavam com um fulgor estranho, um brilho que parecia capturar a essência das estrelas. Cylliak, oculto nas colinas próximas, reconheceu o perigo imediatamente: aquelas armas haviam sido forjadas a partir de algo roubado da minha espécie, o Primeiro Povo, arrancado de nossos próprios peitos para criar lâminas capazes de ferir até o mais temível dos antigos dragões, cujo tamanho, em eras esquecidas, fora suficiente para encobrir o próprio sol.

Cylliak não hesitou, avançou sobre os homens com fúria, como jamais havia sentido. Lutava não por si, mas para proteger seu irmão de todo o mal que aquele mundo pudesse trazer. Cada golpe era movido por uma força que nascia do mais profundo do seu ser.

Quando, por fim, a confusão cessou, Cylliak ergueu o olhar apenas para encontrar o semblante desesperado de Cyllion. Tentou ir até ele, mas suas pernas fraquejaram. Seus braços penderam, sem força. Confuso, seguiu o olhar do irmão e só então percebeu a lâmina cravada em seu peito, atravessando seu coração.

Seu corpo tombou pesadamente ao chão. E, apenas agora, enquanto a vida começava a escapar-lhe, Cylliak compreendia, com uma dolorosa clareza, o que Kardo havia lhe deixado como legado.

Cyllion, ferido e cheio de temor, aproximou-se apressadamente, ajoelhando-se ao lado dele.

— Eu entendo agora, meu irmão... — murmurou Cylliak, sua voz rouca, enquanto seus olhos se perdiam na aurora esverdeada que tingia o céu. — Tudo o que eu precisei... sempre esteve aqui... junto de mim, desde antes do começo.

Ele sorriu, fraco, mas genuíno.

— Perdão... por não ter visto antes...

E com essas últimas palavras, seus olhos se fecharam suavemente, como se, enfim, tivesse encontrado paz.

Naquele instante, consumido pela dor e pelo pesar, Cyllion ergueu a cabeça aos céus e soltou um rugido de desespero, um lamento tão profundo que parecia ecoar por todos os cantos do mundo.

Foi então que me aproximei deles. Desci dos céus tão rápido quanto pude, mas já era tarde. Cyllion segurava o corpo sem vida do irmão, seu olhar perdido em tristeza infinita.

Filho do Vento... — murmurou ele, a voz embargada. — Eu te darei tudo o que tenho... então, por favor, salve-o.

Ajoelhei-me diante deles, sentindo o peso da dor que pairava no ar.

— Cyllion, ele se foi — disse com suavidade.

Era necessário explicar que, apesar de meu povo carregar dons antigos, nem mesmo nós conseguíamos interferir na morte.

— Mas — continuei, com o máximo de ternura —, posso preservar este lugar. Torná-lo eterno, guardando para sempre a memória de seu irmão.

Cyllion pousou a cabeça sobre o peito de Cylliak, como se ainda pudesse ouvi-lo.

— Eu agradeço, Filho do Vento... — sussurrou, fechando os olhos. — Estive com ele desde antes de nascermos... e, agora, mesmo depois da morte, quero continuar ao seu lado.

Olhei para ele com profundo pesar. Sentia a dor que ele carregava, tão intensa que parecia também dividir o meu próprio coração. Entendi então o que Cyllion pretendia fazer: estava separando sua essência de seu corpo, libertando-se da vida de forma voluntária, um saber ancestral que aprendera com o meu povo.

Cuide de nós... — pediu o dragão, num último suspiro, desta vez sereno.

E eu assim o fiz.

Transformei Cylliak, o dragão azul, em um vasto lago de águas cristalinas, tão puras que refletiam o céu como um espelho: O Lago Cylliak. E, com o corpo de Cyllion, fiz brotar uma árvore colossal de folhas cintilantes, cuja presença enchia toda a região com vida e esperança, a primeira semente daquilo que hoje conhecemos como a Floresta de Cyllion.

Assim, eles permaneceram juntos. Unidos antes do começo, e ainda juntos mesmo depois do fim.

FIM


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