Prefácio
“Tenho muitas histórias sobre meu velho amigo Kardo. Mas
esta não pertence só a ele; é também de um menino de olhos serenos e sorriso
sincero, que um dia cruzou seu caminho e reacendeu uma chama esquecida.
O tempo passou, e reencontrei aquele garoto, agora um homem.
Carregava no peito a memória viva de algo raro, algo que o mundo quase havia
esquecido.
Ele me contou tudo. E no eco de suas palavras, ressoaram as
últimas de Kardo.
Assim, com reverência e simplicidade, entrego-lhes O Conto do Pequeno Samego.” — O Filho do Vento
O
Conto do Pequeno Samego
Em uma manhã ainda quente de fim de outono, o pequeno Samego
saiu de casa para buscar água no riacho próximo. Enquanto enchia o balde,
deixou-se levar pela serenidade da paisagem. O Reino de Kardo, naquela época,
transbordava uma beleza tranquila e acolhedora. Foi então que ele notou, do
outro lado do riacho, um lobo observando-o em silêncio. O animal lhe pareceu
familiar. Samego não percebera naquele momento, mas era o mesmo filhote que
havia salvado meses antes, durante uma enchente que assolara a região. Desde
então, o lobo surgia ali com frequência, sempre à sua espera, com olhos atentos
e curiosos. Observava-o em silêncio e, quando o menino se virava para partir,
também desaparecia entre as árvores.
De volta à casa, Samego colocou parte da água para ferver no
fogão a lenha. Seu pai já havia saído para o trabalho e, após dobrar
cuidadosamente algumas roupas a pedido da mãe, foi ver como estava sua irmã
mais nova, que lutava contra uma doença que comprometia seus pulmões. Todas as
manhãs, ele se sentava ao lado dela e contava como fora sua caminhada,
descrevia a paisagem, falava do clima, e juntos faziam planos para quando ela
melhorasse.
Pouco depois, sua mãe chegou com um balde cheio d’água e um
pano úmido. Enquanto cuidava da menina e examinava sua febre, a pequena a
encarou com olhos esperançosos e pediu:
— Mãe... já que tá quente hoje, posso ficar um pouquinho lá
fora com o irmãozão?
A mãe, com os olhos inchados e cansados, fitou a filha por
um instante.
— Só um pouquinho —
disse, em voz baixa, carregada de ternura e preocupação.
Em seguida, voltou-se para o pequeno Samego com um olhar
firme:
— Ouviu, né?
Sentaram-se do lado de fora e, embora a conversa fluísse
naturalmente e ambos admirassem a paisagem, a garotinha mantinha no olhar um
traço de tristeza.
— O que foi? — perguntou Samego, preocupado.
Ela continuou encarando as grandes montanhas que se erguiam
no horizonte, cercando todo o vilarejo onde viviam.
— Eu queria ver... sabe?
— Ver o quê?
— A gente só vê tudo aqui de baixo — murmurou, voltando o
olhar para as montanhas. — Só uma vez...
queria ver como é tudo lá de cima... igual o Senhor Kardo.
Neste momento o vento se levantou, fazendo as árvores
estremecerem, e, dos céus, surgiu uma figura colossal. Suas asas imensas rasgaram
o horizonte, lançando uma sombra que engoliu todo o vilarejo. Pairou
majestosamente no ar por alguns instantes, antes de pousar sobre uma das
montanhas, que, diante de sua imponência, parecia minúscula.
— É ele! — exclamou
a menina, com os olhos brilhando de emoção.
Samego a observou, tomado por um impulso forte.
— Eu prometo que vou te levar até lá — disse, com firmeza e
emoção. Então sorriu de lado, empolgado. — Mas a vista não vai ser só do alto
de uma montanha...
Ela o encarou, curiosa.
— Vai ser montada num dragão!
Os olhos da menina cintilaram, e um sorriso eufórico iluminou
seu rosto, mas a alegria durou pouco. Subitamente, foi tomada por um forte
acesso de tosse, e Samego precisou ajudá-la a voltar para dentro.
Ele a colocou na cama, sentindo sua angústia e sofrimento.
Permaneceu ali, ao lado dela, até que o sol se escondesse por completo e as
duas luas tomassem o céu, trazendo consigo um frio de gelar os ossos.
Samego, triste e inquieto, mal conseguiu dormir naquela
noite, vigiando silenciosamente a irmã. Foi apenas com a chegada do amanhecer,
ao retomar sua rotina, que tomou uma decisão.
Naquela manhã, despediu-se pela primeira vez do lobo que
sempre o observava e voltou correndo para casa. Deixou o balde na entrada da
cozinha e seguiu apressado até o quarto da irmã.
— Irmãozão... — começou ela, com a voz fraca, mas foi
interrompida.
— Vou até o Senhor Kardo — sussurou ele, certificando-se de
que a mãe não estava por perto.
— Sério? — exclamou a menina, eufórica.
Assustada com o próprio tom, tapou a boca com as duas mãos.
A mãe logo apareceu, espiando pela porta, mas, ao não ouvir mais nada, voltou a
seus afazeres.
— Vou ficar fora por um tempo — murmurou Samego. — Não conta
pra mamãe.
A menina, ainda com as mãos sobre a boca, assentiu com a
cabeça, com brilho no rosto.
Samego correu até seus pertences. Vestiu a calça mais
resistente e o casaco mais quente que possuía. Antes de partir, retornou ao
quarto da irmã, deu-lhe um beijo na testa e disse:
— Quando eu voltar com o Senhor Kardo, a gente vai ver tudo
isso lá de cima... juntos.
Gravou em sua memória o sorriso animado e o olhar iluminado
que ela lhe deu. Depois, partiu, levando alguns pães no bolso.
Samego avançava com confiança mata adentro, sem hesitar. Os
passos eram decididos, impulsionados pela promessa que fizera. No entanto, não
demorou para que uma inquietação começasse a se formar em seu peito, galhos
estalavam ao seu redor, como se algo o seguisse. Estava sendo vigiado.
Percebeu, então, a própria ingenuidade: não havia levado
nada para se proteger. Ainda assim, não recuou. Seguiu determinado rumo à
montanha ao nordeste, onde Kardo costumava pousar.
Horas e quilômetros se passaram até que alcançasse as
proximidades da encosta. Mas a sensação de alerta só aumentava. O silêncio da
floresta, que antes era quebrado por estalos, agora era preenchido por
grasnados espaçados de corvos, um som que parecia anunciar perigo.
Logo adiante, na trilha coberta de folhas, Samego encontrou
um sinal claro de que não estava sozinho: carcaças abandonadas, devoradas até
os ossos, jaziam ali. Alguém, ou algo, caçava naquela região. E não era nada
amigável.
Um rugido ensurdecedor rasgou o silêncio. As árvores
estremeceram. Pássaros voaram em pânico. Então, a criatura apareceu, grotesca,
faminta, saída de um pesadelo. Seus olhos, vermelhos e vidrados, ardiam com
fúria. O corpo, grotesco e disforme, era composto por pedaços de diferentes
animais, como se tivesse sido montado por mãos profanas. A carne pútrida
exalava um cheiro nauseante, semelhante ao da própria morte.
A criatura corrompida lançou-se contra Samego com uma
velocidade assustadora. O garoto recuou, tropeçando e caindo no chão, mas antes
que o monstro o alcançasse, um lobo saltou de trás dele, rugindo com
ferocidade. Atacou direto o pescoço da criatura, cravando os dentes e
dilacerando-a com violência.
Ofegante e assustado, Samego fitava a cena. O lobo se
afastou da carcaça, atento. Samego reconheceu a mancha negra nas costas, era o
mesmo filhote que salvara na enchente. Agora crescido, voltara para protegê-lo.
Samego ficou de joelhos, o coração ainda martelava no peito.
Por um instante, apenas escutou o vento entre as árvores e o
farfalhar das folhas pisoteadas. A paisagem parecia segurá-lo em suspense.
Mas não havia tempo a perder. Respirou fundo, ergueu-se com
dificuldade e lançou um último olhar ao companheiro silencioso, antes de seguir
adiante, em busca de abrigo.
O sol já se aproximava do horizonte, e com o inverno à
porta, a noite prometia ser gelada. Precisava encontrar um lugar seguro antes
que o frio tomasse conta da floresta.
Mas não conseguiu encontrar lugar algum, fazendo a
preocupação se instalar em seu peito conforme as duas luas subiam aos céus.
Flocos de neve começaram a cair e o calor começou a escapar de seu corpo. Ele
olhou para seu companheiro, invejando o quanto lidava bem com o clima.
O corpo tremia. As pernas falharam. O frio, agora dentro
dele, pesava mais que o próprio medo. Desabou sobre a neve branca. Viu os
flocos caindo, girando no ar. E naquele instante... tudo escureceu.
Antes que o lobo pudesse reagir ou pensar em alguma
providência, um par de olhos verdes brilhantes surgiu em meio ao branco intenso
da paisagem.
Imediatamente, o lobo se posicionou à frente do menino, em
postura de defesa, pronto para proteger seu salvador de qualquer ameaça. Mas a
criatura que se aproximava, embora imponente, não exalava hostilidade.
Era um urso gigantesco, com mais de três metros de altura. Seus
olhos, verdes como esmeraldas, brilhavam serenos. A pelagem branca liberava
flocos de luz a cada passo, iluminando suavemente o ambiente.
O Urso se aproximou com calma, aspirou o ar próximo ao rosto
do menino e, com uma mordida gentil em seu casaco, o ergueu com cuidado,
carregando-o entre as presas.
Quando o sol nasceu, Samego resistia a sair de onde estava.
Estendendo o braço para fora, sentiu o frio cortante da manhã e desejou apenas
aproveitar um pouco mais daquele calor reconfortante que o envolvia.
Calor?
A lembrança voltou como um trovão: o frio extremo, a neve, o
cansaço... e o momento em que desmaiara.
Abriu os olhos de súbito, e deparou-se com uma cena
inusitada. Estava em uma caverna pouco iluminada, abraçado ao imenso urso
branco que, durante a noite, o aquecera com o calor do próprio corpo.
O coração disparou, o instinto foi o pânico. Mas, ao virar a
cabeça e ver seu amigo lobo dormindo ali ao lado, Samego se acalmou. O urso o
colocou no chão, observando-o com ternura.
Samego permaneceu em silêncio. Havia tristeza e espanto em
seu olhar. Duas criaturas, tão diferentes, haviam salvado sua vida. E ele...
ele sequer sabia como agradecê-las. Sabia que suas palavras provavelmente não
seriam compreendidas, mas seu coração transbordava gratidão.
Foi nesse momento que um ronco vindo de seu estômago lhe trouxe de
volta à realidade, e também uma ideia.
Com um sorriso sincero, Samego enfiou a mão no bolso do
casaco e retirou dois pãezinhos amassados. Olhou para seus salvadores e os
repartiu com carinho, oferecendo o pouco que tinha àqueles que haviam lhe
salvado a vida.
Depois, Samego retomou o caminho, desta vez, acompanhado por
dois novos companheiros. Uma fina camada de gelo, caída durante a noite, cobria
o chão. Com cuidado, seguiram adiante.
À medida que a manhã avançava, o topo da montanha parecia
cada vez mais próximo, mas o caminho também se tornava mais íngreme. As pernas
de Samego logo cederam ao cansaço, e o Urso Branco se ofereceu para carregá-lo
nas costas. Assim, o grupo não demorou a alcançar o cume.
Quando a tarde chegou, um forte bater de asas rompeu o
silêncio, vindo do horizonte. O vento que se seguiu foi tão intenso que quase
lançou o garoto montanha abaixo.
Ao avistar as pequenas criaturas reunidas no topo, o corpo
de Kardo brilhou com uma luz vibrante nas cores do arco-íris, que aos poucos se
condensou até assumir uma forma humanoide. Mesmo assim, suas asas permaneceram
fortes e imponentes.
Ele pousou diante deles com um voo firme e sereno.
— O que faz tão longe de casa, pequenino? — perguntou,
encarando o Pequeno Samego.
— Senhor Kardo! — exclamou o garoto, ao descer das costas do
urso.
Ficou parado, impressionado diante da figura majestosa que
se erguia à sua frente. A pele de Kardo era escura como uma noite sem luas, e
seus cabelos, longos e avermelhados, pareciam chamas esvoaçantes ao vento. As
asas imensas, vigorosas, recolheram-se suavemente sobre seus ombros,
transformando-se em uma longa e elegante capa carmesim. Mas foi ao encarar seus
olhos que Samego sentiu o mundo silenciar: eram amarelados, incandescentes, e
em cada um pulsava um símbolo enigmático, como se guardassem segredos antigos
demais para serem ditos.
Samego agarrou com força o tecido da própria calça, tentando conter o nervosismo.
— Vim até aqui... para te pedir um favor.
Kardo se aproximou devagar. A luz do entardecer iluminava
seu rosto, revelando traços marcados pelo tempo e um cansaço silencioso.
— É curioso — disse ele, fitando o trio diante de si com
olhos atentos. — Um garoto, um lobo... e
um urso que carrega uma parte de um velho amigo.
Fez uma breve pausa, e inclinou levemente a cabeça.
— Pois diga, pequenino.
O garoto soltou o tecido da calça e cerrou os punhos com
toda a coragem que havia dentro de si.
— Meu nome é Samego. Minha irmãzinha está doente. Vim até
aqui pra realizar um sonho dela... Ela
quer ver tudo lá de cima... pelo menos uma vez.
— Entendo... — murmurou Kardo, sentando-se sobre uma pedra
enquanto contemplava o pôr do sol.
Samego deu alguns passos à frente, reunindo forças para
continuar.
— O senhor... poderia levá-la nas costas para um passeio?
Kardo voltou o olhar para o garoto, com expressão serena.
— Que tal... quando ela melhorar?
Nesse instante, os olhos de Samego se encheram de lágrimas.
Ele não podia mais ignorar aquilo que todos à sua volta já sabiam.
— Senhor Kardo... Ela
não vai melhorar...
Kardo desviou o olhar, deixando que sua tristeza também se
voltasse para o horizonte avermelhado.
— Então você percorreu todo esse caminho... por ela?
Samego assentiu, enxugando o rosto com o antebraço antes de
responder:
— Sim. tenho que cuidar daquilo que eu amo... Foi o que minha mãe me ensinou.
Por um breve instante, algo diferente brilhou no olhar de
Kardo, uma centelha de surpresa, como se as palavras do menino tivessem
despertado nele uma lembrança antiga, há muito esquecida.
Kardo se levantou lentamente. Suas asas se abriram com
imponência, e seu corpo começou a emitir uma luz vibrante nas cores do
arco-íris. Em poucos segundos, sua forma se transformou novamente: um imenso
dragão tomou o lugar do homem, e uma única de suas presas era facilmente o
dobro do tamanho de Samego.
— Então vamos — disse ele, com uma voz que ressoava com um
trovão sereno.
Samego, no entanto, deu um passo para trás. Seus olhos se
voltaram para os dois companheiros que haviam cruzado a floresta com ele e
salvado sua vida.
— Eu... eu não posso ir e simplesmente deixá-los para trás.
Eles me protegeram...
Kardo o observou em silêncio por um momento. E a luz
multicolorida brilhou novamente, reassumindo sua forma humana, com um
sorriso orgulhoso no rosto.
— Uma escolha nobre... Pequeno
Samego.
E assim, os quatro partiram juntos, caminhando lado a lado.
Quando chegaram à caverna do Urso Branco, o menino parou.
Aproximou-se de seu imenso amigo silencioso e o abraçou com força, murmurando
palavras gentis de gratidão. O urso respondeu com um olhar sereno, antes de
desaparecer entre os flocos de neve.
Mais adiante, já nos limites do vilarejo, o garoto também se
despediu do lobo. Acariciou sua cabeça, com os olhos marejado, e o viu desaparecer
entre as árvores, como sempre fazia.
Acompanhado apenas por Kardo, Samego finalmente chegou de
volta à sua casa.
Ao entrar, foi direto até o quarto da irmã. Ela dormia,
respirando com dificuldade, mas com o rosto sereno. Ele se aproximou devagar,
sentou-se ao lado dela e segurou sua pequena mão.
— Eu consegui... — sussurrou, emocionado. — Eu disse que ia
voltar com ele...
A menina abriu os olhos lentamente, reconhecendo a voz.
Sorriu, fraca, mas genuinamente, e murmurou:
— Irmãozão... Você viu tudo lá de cima?
Somente nesse momento que Samego percebeu: ao chegar no topo da
montanha e esperar por Kardo, não olhara para a paisagem ao redor. Estava tão
focado em cumprir sua missão que se esquecera de contemplar a vista.
— Não... — respondeu ele, apertando de leve a mão dela. — Esperei
pra ver com você.
Ficou ali por alguns minutos, em silêncio, até que a mãe apareceu.
Não disse nada. Apenas o envolveu num abraço apertado, carregado de alívio e
amor.
Naquela noite, Samego contou com entusiasmo cada detalhe da
aventura que vivera, fazendo os olhos da irmã brilharem a cada nova parte da
história.
E foi só na tarde seguinte que Kardo os levou em suas
costas, realizando o sonho da pequenina ao lhes mostrar, lá do alto, o reino
que ajudara a prosperar.
Quando retornaram, ele se despediu. Mas, antes que partisse,
a menina fez uma última pergunta, simples e singela:
— Senhor Kardo, pra onde você vai agora?
Com um olhar firme e um leve sorriso no rosto, ele
respondeu:
— Garantir que haja
uma luz... para quando a noite mais sombria chegar.
Logo depois alçou voo, cortando os vastos céus do reino. E aquela foi a última vez que seu povo o viu cruzando os céus.
FIM
Muito interessante, universo muito bem elaborado e enredo imersivo.
ResponderExcluirMaravilhoso! Sensível e com uma grande dose de amor e compaixão. Em meio a fantasia o autor consegue humanizar o impossível e prender o leitor até o grande final.
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